domingo, 5 de junho de 2016

O Bêbado da Madrugada

Chego em casa por volta das onze horas da noite, acompanhado por uma garrafa de uísque barato que comprei na vinda, vou até a cozinha e pego um copo, abro a garrafa e começo o meu monólogo para alguns espectadores alheios a mim, a garrafa de fronte que vai sendo esvaziada é a mais atenta aos meus delírios.
Essa situação extremamente degradante me deixa um tanto humilhado, mas o uísque me consola, esse fato, o fato de está impregnado pela solidão me faz refletir sobre o que eu considero importante para existência humana, a literatura, a música, o cinema, a arte. São coisas que eu considero extremamente importantes, ouvi dizerem uma vez que a vida sem a música seria um erro, e de fato devo concorda, pena que o álcool não permita nesse momento lembrar quem falou essas sábias palavras, mas tenho certeza que um dia lembrarei, pode ser amanhã ou daqui a dez anos quando eu sai deste estado de embriaguez.
Devo dizer que tem uma arte que soma todas essas outras artes e que de minha pessoa tem toda admiração, a arte de amar, amar é a arte mais linda deste mundo cruel, para amar verdadeiramente precisa ser poesia, precisa ter ritmo, harmonia e doçura, mas não necessariamente precisa ser assim, isso não é uma regra e por isso acho que a arte poética do amor está mais próxima da poesia modernista de Manuel Bandeira, tão bela em toda a sua Libertinagem.
Essa garrafa está prestes a terminar, temo que as próximas palavras possam impactar e por isso podem vir a chamar-me louco.
Nesta noite como em quase todas estarei a pensar, com esse mormaço, com o som do ventilador que não ventila, com os olhos vidrados no tento como se estivessem vendo uma cena erótica entre duas ninfas completamente nuas, pensar os meus sonhos acordados até ser apunhalado pelo sono e sonhar no meio da noite com um mundo onde homens laçam e matam outros homens como se fossem bois, ver aquela cena sentado na sombra do cocho, o homem sendo arrastado, ouvir o grito de morte, agonizante e sentir um calafrio que me tira a metade dos sentidos e ainda assim sentir um medo ainda maior com as gargalhadas mortíferas com odor de estrume dos que matam sem pena e sem culpa.

Fernando Emannuel
Delmiro Gouveia – AL

29 de Abril de 2015

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